Desde o início o homem negou-se a viver sozinho. Ao buscarmos as Sagradas Escrituras , encontraremos em seu primeiro Livro, duas versões sobre a criação do ser humano: a primeira em que Deus cria o homem e a mulher no mesmo instante e a segunda em que cria o homem e depois a mulher . Inclusive ao verificarmos essa segunda passagem, leremos a seguinte frase “proferida” por Deus: “… não é bom que o homem esteja só”.

Conversando com os poetas sobre o assunto de viver sozinho, eles dirão que tal atitude é impossível. Existe até uma frase antiga, que infelizmente não recordo do autor, que dizia: “Ninguém vive só, pois até quando choramos as lágrimas caem de duas em duas!”

Buscando no ordenamento jurídico, os doutrinadores dirão que não existe pessoa sozinha, pois para qualquer fato ter existência é necessário dois agentes, o do dever e do fazer, ou seja, para ser sujeito deve-se existir o sujeito do direito e da obrigação.

Poderíamos filosofar muito sobre esse assunto e trazer vários conceitos de pensadores e visionários diferentes, contudo não é essa a intenção desse artigo. O que queremos é proporcionar uma reflexão interior sobre nossas atitudes em nossas relações com as pessoas.

Você já parou para pensar em como está nossa sociedade? É muito fácil rotulá-la de “doente” não é mesmo?! Muitas vezes, enquanto estou aguardando o sinal vermelho passar para o verde em alguma esquina de nossa cidade, observo os que vêm e os que vão. Pouca cortesia ou quase nada é o que nos circula. As pessoas têm pressa, não podem dar passagem, não podem observar o canto dos pássaros ou dar um sorriso ao motorista ao lado, mas podem buzinar, xingar, fazer ultrapassagens perigosas e porque não, ser o motivo de um acidente envolvendo inocentes.

Tive a sorte de crescer em uma cidade pequena e interiorana do noroeste do RS, onde as pessoas sorriem e se cumprimentam. Cidade esta em que os vizinhos vendem as hortaliças que cultivam no pátio de suas casas, em um lugar que todos conhecem ou já ouviram falar uns dos outros, onde não existe a frase: vou para o centro hoje, mas sim vou para a cidade, mesmo que você more em um bairro dessa cidade e não na zona rural.

Quando vim para a “Cidade Grande” trouxe comigo vários “vícios” da guria do interior: o cumprimentar com um sorriso e um abraço apertado, o aperto de mão firme, o “e” terminando as palavras e não o “i”, algumas gírias mais campesinas que não poucas vezes imediatamente fizeram com que as pessoas percebessem que não nasci em Caxias.

Você já percebeu que quando cumprimentamos as pessoas e sorrimos, elas se assustam? É incrível, mas é o que acontece, ninguém espera por um sorriso ou um gesto educado, não temos mais tempo!

Entendo que não foi o tempo que se tornou mais curto, mas nós que nos tornamos mais individualistas. Hoje o que vale é o ganhar sempre e se não ganhar, ficar feliz se tirar proveito em algo. É a famosa Lei de Gérson, que rege as relações e não a Lei do coração, da sensibilidade, de Deus. Este, para muitos é mera fantasia bucólica que atrasa ainda mais o times money social.

Em meus deslocamentos para algumas reuniões, observei alguns cegos que estão em nossas ruas. Alguns possuem um cachorro guia (e penso, porque não um ser humano?), outros bengalas de aço que vão batendo em paredes e calçadas gerando alguma localização de onde eles estão. Para poderem atravessar a rua, as pessoas “normais” não têm paciência com eles. Muitas vezes esses deficientes visuais são esbarrados por alguém, ou quase atropelados, mas dificilmente ajudados por alguém que possua sua visão perfeita e que poderia fazer a diferença naquele dia, mas não fez.

Então, quem são os cegos sociais? Vale salientar que não tenho nada contra os animais, ao contrário, amo-os por serem criaturas de Deus e nos amar incondicionalmente, mas nada substitui um carinho, um toque, um gesto humano.

Apesar de sonhar com um mundo melhor, tenho consciência de que nossas relações humanas hoje se baseiam no poder e no ganho fácil. O fator da separação entre bons e maus, santos e pecadores são os valores monetários e não os morais. Pense em quantos amigos perdeu, com quantos parentes já não conversa, em quantos estabelecimentos já não entra mais e unicamente por alguma situação que envolveu dinheiro. É triste, mas é a realidade.

Como contadora, já perdi muitos clientes por negar-me a cometer “falcatruas” fiscais e tributárias para que eles pagassem menos tributos, mas tenho um acordo com meus princípios e minha consciência. Utilizo-me das palavras do ex-vice-presidente José de Alencar que dizia: “Não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra. Por uma razão muito simples: nossos irmãos, nossos amigos, nossa família, nossos filhos… Nós temos pessoas que nos estimam. Se nos comportarmos dignamente, mesmo depois de mortos, não teremos morrido para eles”.

Então me pergunto: como as pessoas não se preocupam com o que vão deixar para seus filhos, netos e demais gerações? Esse mundo e essa vida não são nossos, mas sim nos são emprestados para que cuidemos e passemos adiante o mesmo. Faz algum sentido uma mãe dizer para que seu filho não jogue papel no chão, mas fumar e jogar o toco do cigarro em nossas ruas além de destruir o oxigênio de quem não possui esse vício?

Como cobrar educação, se gritamos quando estamos ao telefone, sem termos a sensibilidade de perceber que quem está ao nosso lado não participa da mesma? Se “furamos” a fila, não damos passagem, colocamos o som alto em nossos carros… são atitudes diárias que transformam o nosso meio. Lembro-me que meu pai sempre dizia: Não se esqueça das palavrinhas mágicas: por favor, obrigada, com licença.

Talvez as pessoas estejam perdendo um pouco o encantamento pela vida.

Temos tantos suicídios, crianças tomando anti-depressivos, o mercado sendo bombardeado com livros de auto-ajuda e que viram Best-sellers devido à quantidade de exemplares que vendem. O que será que falta nessas pessoas, ou melhor, em nós? Penso que é a fé, perdemos a fé, seja no que for que acreditemos, ou até porque não, talvez tenhamos perdido a fé em nós mesmos.

Relacionamentos são a base de qualquer vida, não há como vivermos sozinhos. Então, porque não nos comprometemos em iniciarmos por nós a mudança? Nem que seja em um determinado aspecto de nosso ser?

Vamos deixar de colocar sempre a culpa no “vizinho” e olharmos para dentro de nós mesmos. Vamos nos comprometer em fazer deste dia o melhor de nossas vidas e da vida dos outros. Faça essa promessa todos os dias e com certeza colherá e plantará frutos melhores em seu redor. Ao desanimar, pois talvez o mundo não lhe responda como gostaria, lembre-se do que São Francisco de Assis deixou para nós: “Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível”.

Paz e bem a todos!