É fato que ainda há empresários que não compreenderam o óbvio, que os trabalhadores querem se realizar como pessoas

Prof. Adolfo Pereira *

A evolução da relação entre o trabalhador e o dono do capital passou por várias fases. Na medida em que as empresas se organizaram, o mercado fortaleceu e a concorrência cresceu, a estratégia empresarial tornou-se de grande importância. E é base para uma estratégia empresarial de sucesso a gestão de pessoas, especialmente, quando esta reconhece que são das pessoas e para as pessoas que a organização existe.

É fato que ainda há empresários que não compreenderam o óbvio, ou seja, de que os trabalhadores querem se realizar como pessoas, e não apenas produzir lucros e receber salários. Em nossas cidades interioranas, impregnadas da cultura passada das grandes fazendas; onde o fazendeiro mandava e o restante dos trabalhadores apenas obedecia e se alegrava quando lhes sobrava algo da “mesa do patrão”; é mais difícil o entendimento de que as coisas realmente mudaram. Hoje, profissionais preparados ficam incomodados quando trabalham em organizações que seguem o modelo antigo onde impera o ditado “manda quem pode obedece quem tem juízo”.

Na medida em que o tempo passou, mais as pessoas se conscientizaram da sua importância no contexto econômico e social. Basta citar o fato de que, no Brasil, em 1992 formaram-se 234.288 alunos no Ensino Superior, e já em 2007, este número foi de 756.799 formandos. Dá então para imaginar o tamanho da massa pensante presente nas organizações. Trata-se de uma mão-de-obra informada, desejosa de desafios, mas também muito menos submissa do que as gerações passadas. Este tipo de profissional, diferente e exigente, está ciente de sua importância para os números da organização, sabe seu valor e está sempre aberto às propostas interessantes do mercado de trabalho.

O termo usado para designar aquele que trabalha nas organizações revela o nível de sua importância.  Comecemos com o escravo, sem direito a nada, apenas a obrigação de trabalhar e de sobreviver em condições rudes; depois o termo empregado, que representa um trabalhador com alguns direitos, mas que continua separado daquele que lhe manda; depois colaborador, sendo este um termo mais moderno, que denota interesse da organização pelo trabalhador, pelas suas idéias e, por isso, passou a lhe ofertar um melhor tratamento em termos de direitos e benefícios. No entanto, a evolução dos tempos não para, e chegamos num tempo onde a relação entre quem manda e quem obedece é intensa e permeada por interesses não tão divergentes assim. Em que pesem as Leis Trabalhistas que buscam preservar o direito dos trabalhadores, mas não os ajudam a sair da condição de submissão; ainda assim, a relação entre o dono do capital e o trabalhador mudou muito. Hoje entendo que os bons profissionais engajados nas organizações não são mais colaboradores e sim parceiros.

Parceiro deveria ser o termo mais adequado para tratar o trabalhador contemporâneo, pois o parceiro é aquele que se relaciona conjuntamente com a outra parte para atingir objetivos comuns. Se de um lado está a organização desejosa de produção e venda, de outro está o profissional pronto para ofertar-lhe competência técnica e horas de dedicação para fazer o que foi combinado. A organização empresarial recebe os lucros e o trabalhador uma remuneração em acordo com sua participação no processo.  O empresário fica com a maior parte dos resultados porque seu risco também é maior. Cabe ao parceiro qualificar-se cada vez mais e ter competência técnica tal que lhe permita exigir uma remuneração à altura da sua competência. E poder, inclusive, escolher com quem quer fazer parceria.

Portanto, organizações que objetivam crescer com base em trabalho perene de alta qualidade, devem tratar seus trabalhadores como parceiros, e não mais como colaboradores. Haja vista que o termo colaborador ainda esconde resquícios do passado, um tempo onde o trabalhador era submisso, era um “coitadinho”, conhecedor da “cartilha dos direitos”, mas com pouco interesse em assumir responsabilidades dentro das organizações.

Tratar trabalhadores como parceiros ainda é um desafio a ser vencido pela maioria das organizações empresariais, pois isso exigirá delas uma relação mais aberta, mais propensa a dividir com seus parceiros os resultados produzidos. Esta estratégia deve contemplar: o não seguimento apenas das Leis trabalhistas, mas o ir além, criando mecanismos de informação que esclareçam a ambos a real situação da organização; articulação para decisões estratégicas ou corriqueiras através de comitês que funcionam com base em estudos técnicos, e não mais centradas apenas num único profissional, que normalmente conhece apenas uma parte do processo; divisão de lucros e concessão de benefícios atrelados a resultados como sendo algo rotineiro e de simples entendimento e aplicação; a compreensão de que as relações de poder devem ser tratadas de forma responsável, e que a decisões em conjunto não tiram do empresário a responsabilidade sobre o empreendimento, pois quanto mais poder de decisão, maior é a responsabilidade.

Desta forma, sentados à mesa como pessoas que buscam objetivos em comum, dirigentes empresariais e parceiros podem realizar resultados muito além daqueles que poderiam produzir se cada um se limitasse a fazer apenas a sua parte. A liderança deve mudar o jeito de comandar, de motivar os parceiros e, em especial, a forma de remunerá-los, pois só assim a mudança se materializará. Se preciso, mude a cultura da organização, pois isso será primordial para a adaptação a este novo jeito de se relacionar num mundo onde trabalhadores não se limitam a apenas obedecer ordens, pois o que querem mesmo, é realizarem-se como pessoas.

Um fraternal abraço. Até a próxima se Deus quiser.

* Prof. Adolfo Pereira é especialista em Gestão de Pessoas, Diretor da APCE,palestrante e professor universitário e associado da INC Comunicação na área de palestras motivacionais.

Fonte: Incorporativa