Bancos: Empréstimos de longo prazo e cessão de carteira diminuem, enquanto cresce apetite por “middle”
 

Aline Lima, Adriana Cotias e Sérgio Bueno | De São Paulo e Porto Alegre
 

Balanços de bancos de médio porte publicados ontem e hoje já mostram efeitos tanto das medidas de contenção do crédito anunciadas pelo Banco Central (BC) no início de dezembro como do evento PanAmericano, que teve um rombo de R$ 3,8 bilhões descoberto.

A maior exigência de capital para operações de longo prazo imposta pelo BC provocou a desaceleração da taxa de crescimento da carteira de crédito do Banrisul no quarto trimestre do ano passado. A alta acumulada em 2010 alcançou 27%, para R$ 17 bilhões, ante o índice de 29,6% nos 12 meses até setembro. Ao longo do último trimestre, a expansão foi de 4,9%, frente aos 7,1% registrados de outubro a dezembro de 2009.

No sentido oposto, a carteira de crédito própria do Bonsucesso cresceu 14% no quarto trimestre, para R$ 1,603 bilhão, amplificando a evolução do ano para 43,3%. A instituição recorreu menos à cessão de carteiras para grandes bancos por conta do episódio do PanAmericano, que pressionou essa estrutura de captação. O banco aumentou a carteira própria ao reter ativos, mas seu lucro no quarto trimestre, de R$ 12,2 milhões, acabou sofrendo redução de 20,5% na comparação com o trimestre anterior, já que a cessão de carteiras traz também antecipação de receitas. No ano, o lucro aumentou 4,2%, e foi a R$ 87,7 milhões.

Com uma captação de US$ 125 milhões em títulos de dívida subordinada no exterior feita no fim de outubro, a liquidez do Bonsucesso estava confortável para reter parte da produção de consignado, conta o presidente da instituição, Paulo Henrique Pentagna Guimarães. “O banco só faz cessão na medida da necessidade de liquidez, não em função de mais ou menos lucro num determinado trimestre”, diz.

No ano, o Bonsucesso originou R$ 1,9 bilhão de créditos, tendo cedido quase 70% disso, o que significa que esse instrumento continuará tendo peso importante no bolo de captação. Só que com o maior requerimento de capital para operar em prazos a partir de 36 meses no consignado, o banco também está ajustando a sua estratégia para dar prioridade ao segmento de pequenas e médias empresas. “O ‘middle market’ não exige tanto capital e dá mais ou menos o mesmo retorno”, afirma Guimarães. No ano passado, esse portfólio cresceu 78%, atingiu R$ 430 milhões e representou 25% do crédito total. A ideia é elevar essa participação para cerca de 40%.

O banco Daycoval apresentou forte crescimento da carteira de crédito em 2010, de 53,2%, para R$ 6,222 bilhões. O impacto das medidas do BC não foi tão grande no Daycoval justamente porque seu principal segmento de clientes é o de pequenas e médias empresas, cujas linhas são, normalmente, de curto prazo. Ainda assim, foi verificada uma leve desaceleração no ritmo no quarto trimestre, quando o saldo foi ampliado em apenas 12,2%. O Daycoval encerrou 2010 com lucro líquido de R$ 274,7 milhões, expansão de 30,1% nos últimos doze meses.

A originação de crédito consignado, modalidade que responde por 25% da carteira do Daycoval, deu sinais de arrefecimento no fim do ano, saindo de R$ 415,8 milhões no terceiro trimestre para R$ 385,8 milhões no quarto trimestre. Mas não está nos planos do banco abandonar esse mercado. “A relação risco e retorno do produto é muito boa”, explica Morris Dayan, diretor de relação com investidores do Daycoval.

Pelo contrário, o banco criou, em julho do ano passado, uma promotora de vendas que já responde por 10% da originação de empréstimo consignado da instituição. São 57 lojas espalhadas por 50 cidades. O investimento elevou as despesas do Daycoval, especialmente de pessoal – foram contratados para a promotora 280 funcionários. No quarto trimestre, as despesas com pessoal atingiram R$ 28,3 milhões, com evolução de 24,7% em relação ao terceiro trimestre, a maior parte referente aos colaboradores da promotora.

Para o presidente do conselho de administração do Banrisul, o secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul, Odir Tonollier, que assumiu o cargo ontem, o cenário mais restritivo para o crédito impõe um “desafio maior” para o crescimento do banco em 2011. Segundo ele, a instituição vai procurar reforçar as operações com empresas de maior porte e também poderá ampliar a presença física na região Sul. “Mas a decisão caberá à próxima diretoria executiva”, afirmou. Das 437 agências do banco estadual, 397 estão localizadas no Rio Grande do Sul.

O aperto no crédito acabou impactando o resultado do banco gaúcho no último trimestre. O lucro de outubro a dezembro cresceu 24,7% em relação ao mesmo período de 2009, para R$ 229,9 milhões, enquanto no acumulado dos 12 meses a alta foi de 37%, para R$ 741,2 milhões. Isso garantiu um retorno de 19,2% sobre o patrimônio líquido de fim de ano e de 20,4% sobre o patrimônio médio do exercício.

As receitas da intermediação financeira do Banrisul subiram 13,6% no ano, para R$ 4,8 bilhões. No quarto trimestre subiram 21,7% em comparação com mesmo intervalo de 2009, para R$ 1,3 bilhão. Em compensação, as despesas com intermediação aumentaram 14,1% no ano, para R$ 2,4 bilhões, e 28,8% no trimestre, para R$ 650,3 milhões.

O banco controlado pelo governo do Rio Grande do Sul, que concluiu 2010 com ativos totais de R$ 32,1 bilhões (expansão de 10,5% no acumulado do exercício), também prevê uma alta menor das carteiras em 2011, entre 15% e 20%. No início deste mês, pesquisa divulgada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) projetou um aumento de 18% nas operações totais de crédito do sistema financeiro nacional neste ano.

Conforme o superintendente de contabilidade Luiz Carlos Morlin, que até março assumirá a diretoria de risco do Banrisul, as providências do BC para evitar bolhas de consumo “surtiram efeito”. Segundo ele, a carteira de crédito comercial pessoa física do banco gaúcho avançou 36,5% em 2010, para R$ 7,4 bilhões, e deve crescer de 12% a 17% em 2011. Nas linhas comerciais para empresas, a expansão deve recuar dos 22,3% no ano passado para algo entre 16% a 21%. No crédito imobiliário, que cresceu 18,4% em 2010, para R$ 1,3 bilhão, a expectativa é de alta de 18% a 23%.

De acordo com o presidente interino do banco, Rubens Bordini, que até março será substituído por Túlio Zamin, indicado para o cargo pelo governador do Estado, Tarso Genro (PT), a expansão das carteiras de crédito em 2010 foi acompanhada pela redução da inadimplência, consideradas as operações em atraso há mais de 60 dias. De 3,4% em dezembro de 2009, o índice caiu para 2,5% em 2010 e o estoque de provisões cresceu apenas 8,4% no exercício, para R$ 1,1 bilhão.

Fonte: Valor Economico

Anúncios